Estou de volta a Moçambique. Os dias que antecedem a viagem são tipicamente mais cheios que o habitual, com uma tentativa de “deixar tudo feito” e “ter tudo preparado”. Qualquer um sabe que nunca tudo estará feito e nunca tudo estará preparado. Mas ao aterrar em Maputo e disfrutar de um bom compasso de espera entre migração e bagagens, começo a desacelerar e de facto aterrar nesta minha segunda casa.
A viagem
Hoje, achei a viagem mais longa do que o habitual. O avião atrasou, dormi pouco, o aeroporto demorou e até a viagem de carro pareceu mais lenta. A cada passo aceitei a intencionalidade do universo me trazer para um ritmo mais presente e assim entrar na monumentalidade que é cada percurso de 10 dias que passo em Moçambique. Lutei o sono e mantive-me alerta à viagem, à estrada que vai mudando de ano para ano, aos chapas que nunca vão mudar, aos vendedores de estrada e aos que a atravessam sem considerar o trânsito que passa. De momentos de contemplação a momentos de intensa escrita no telefone para começar a dar espaço às ideias que inevitavelmente vão surgindo quando abrando. Já vejo a ponte, avisto Xai-Xai. A primeira paragem está à vista.
A alegria
Nem sempre nos lembramos de sentir alegria. Vir a Moçambique lembra-me a alegria. A alegria de quem vejo passar, a alegria das crianças que têm tão pouco. Mas hoje, foi a alegria dos colegas de equipa que me recebeu em Moçambique. Um a um, abracei com carinho cada um dos técnicos que contribuem diariamente com o seu trabalho para que a vida das crianças são diferentes. Ao som da música que sem querer se tornou um hino para nós, danço, abraço e agradeço.
“Um Pequeno Gesto, ajuda o teu irmão, nós vamos fazer acontecer!”
É contagiante, sei que já não preciso de forçar-me a lembrar que tenho de celebrar. Aqui, esse é o mote da semana. Sem dúvida que trabalhamos muito também, mas tudo começa de um centro de alegria e manifestação de gratidão. Trocam-se abraços, trocam-se presentes e a Mamá Elisa começa “Bem vinda à sua segunda casa!”.
A celebração
Tenho de ser honesta, estou sempre a “ralhar” para não celebrarem de mais. Não me considero uma celebridade e estou sempre à procura de tempo para nos pormos a trabalhar. Mas, com os anos, e especialmente com a constituição desta equipa sólida de trabalho nos últimos 2 anos, aprendi que temos de facto de celebrar. Celebrarmos sermos uma equipa, celebramos o trabalho que fazemos, a dedicação diária, os sucessos que vamos alcançando. Aprendi que é especialmente importante celebrar para nós que estamos longe, porque facilmente nos perdemos em folhas de excel, emails de padrinhos e relatórios a doadores. Aprendemos porque facilmente nos focamos em relatórios mal preenchidos, listas com nomes trocados ou pesos por medir, quando na realidade temos de nos lembrar de atividades feitas, crianças sorridentes e mais saudáveis (pesadas ou não). Pessoalmente, não sei se aguentava muitos mais dias sem uma pausa destas. O último trimestre do ano é ainda muito pesado para nós em termos de trabalho de sede e é fácil perder perspetiva que na verdade, o trabalho está a correr muito bem. Parabéns a esta equipa maravilhosa
O trabalho
Depois de aceitar celebrar é altura de trabalhar. Procuro realinhar membros antigos e novos daquilo porque regemos a nossa ação – os 5 pilares que definimos com maior precisão nos últimos 2 anos – alimentar, educar, equilibrar, acelerar, empoderar. Com esta visão, discutimos atividades e onde estamos a cumprir ou não, discutimos métricas de inputs (atividades) e outputs (impacto), como se distinguem e como importam. Importam para doadores sim, mas também importam para sabermos se estamos a ter impacto com as crianças e as famílias. Estamos preparados para ir mais fundo.
O Deep-Dive
Com calma e uma profunda dedicação (especialmente considerando que eram 17.00 quando fechámos a discussão e ninguém tinha almoçado), cada um discutiu o projeto a que pertence. As dificuldades de pesagens e representatividade da amostra num programa de Alimentação. As preocupações com as notas do 2º trimestre das crianças apadrinhadas e as dificuldades em recolher notas em algumas escolas. O plano de melhoria da literacia e numeracia no apoio ao estudo e o reforço da assiduidade escolar. O impacto do Projeto Mbalélé Mbalélé nas pré-escolas e na formação da equipa no geral. Cada dificuldade apresentada como um desafio e com ponderação na resposta a cada questão. A resiliência de hoje foi sem dúvida a mostra da resiliência da equipa.
Sem despedidas
Foi bom fazer este encontro sem ter me de me despedir logo. Às vezes apenas passo num projeto um dia e é um olá e adeus. Mas esta forma de começar permite dizer um até já a todos, partindo do nosso escritório para cada projeto individual para podermos aprofundar mais o nosso trabalho e claro, celebrar com as crianças! Até já!

